Por Jéssica Sant’Ana, g1 — Brasília

O ministro da Economia, Paulo Guedes, chamou de “conversinha” nesta segunda-feira (25) as estimativas cada vez mais pessimistas do mercado e de economistas sobre o crescimento do Brasil no ano que vem.

Nesta segunda, o aumento da incerteza fiscal e o contexto de juros mais altos levaram o Itaú Unibanco a rever projeções para o resultado do PIB (Produto Interno Bruto) no próximo ano — de uma estimativa anterior de 0,5% de crescimento, o banco atualizou a previsão para uma retração de 0,5%.

Sem mencionar a projeção do Itaú Unibanco, o ministro afirmou: “O crescimento não ia vir. Já tá 5% ou 5,3% ou 5,4% neste ano. Já estão falando que no ano que vem não vai crescer. Vai crescer de novo, cada um vai fazer o seu trabalho”.

Em discurso no Palácio do Planalto para o presidente Jair Bolsonaro e ministros durante o lançamento do Programa Nacional de Crescimento Verde, Guedes repetiu a tese várias vezes reiterada por ele do “crescimento em V”.

“Vamos crescer ano que vem de novo. A conversinha é sempre essa. Primeiro que ia cair, ia ficar lá embaixo, não ia voltar. Aí volta em V”, afirmou.

Além do Itaú, a consultoria MB Associados reduziu a projeção para o PIB de 2022, passando de 0,4% para 0%, ou seja, uma estagnação econômica.

O JPMorgan é outra instituição financeira que piorou as projeções para 2022. “Nesse ambiente de juros elevados, inflação ainda alta e falta de visibilidade na frente da política fiscal, estamos também revisando nossos modelos de crescimento de acordo com esta mudança de regime que coloca pressões descendentes em nossa já abaixo do consenso previsão de 0,9% (para crescimento do PIB em 2022). Por enquanto, não podemos nem descartar uma recessão no ano que vem”, diz o banco em relatório enviado a investidores.

De acordo com o Boletim Focus divulgado nesta-segunda-feira (25) pelo Banco Central, o mercado baixou a previsão de alta do PIB de 1,50% para 1,40% em 2022 — o percentual do Focus reflete uma média das previsões de mais de cem instituições financeiras consultadas.

Para este ano, os economistas do mercado financeiro reduziram a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 5,01% para 4,97% em 2021.

As revisões foram feitas após o ministro ter apoiado na semana passada a decisão do governo de flexibilizar o teto de gastos (mecanismo que limita o aumento da maior parte das despesas à inflação do ano anterior).

Guedes tem dito que as mudanças no teto de gastos têm por objetivo ampliar a proteção social, por meio do Auxílio Brasil, mas analistas têm apontado que seria possível incrementar o programa sem estourar o limite para despesas.

Na semana passada, a comissão especial criada na Câmara para analisar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios aprovou o texto, que deve ser votado em plenário nesta semana.

A PEC fixa um limite, a cada exercício financeiro, para as despesas com precatórios (dívidas da União já reconhecidas pela Justiça) e altera a regra de correção do teto de gastos.

A alteração na fórmula e o limite de pagamento dos precatórios liberam quase R$ 84 bilhões para despesas em 2022, ano eleitoral.

Na prática, o governo conseguiria essa margem para contornar o teto de gastos. Técnicos do Congresso estimam que esse espaço orçamentário pode ser ainda maior e ultrapassar R$ 95 bilhões.

No evento no Planalto, Guedes disse que a alta da arrecadação neste ano permite que o governo gaste mais no ano que vem para pagar o Auxílio Brasil.

“É evidente que seja com o pedido de extrateto, seja com uma revisão, não podemos disfarçar a verdade. A verdade é que vai haver um gasto um pouco maior. Estamos falando de 30 e poucos bilhões [de reais]. A pergunta é o seguinte: para um país que arrecadou R$ 300 bilhões a mais do que o ano passado [2020], 30 bilhões são 10%”, disse o ministro.

A Receita Federal anuncia na terça-feira (26) a arrecadação de setembro.

Fonte: G1